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Eleição: alguns porquês.

postado em 2 de mai de 2011 19:49 por André Luiz Covre

A UFVJM vive um momento importante: as eleições para a sucessão da Reitoria. Nos momentos de disputa são reveladas as mais disfarçadas características, tanto dos processos, quanto das propostas, das intenções e das negociações. É lobby, é conchavo, é propina, é jeton, variações do mesmo tema sem sair do tom, dizia uma canção dos Paralamas do Sucesso de 1995, referenciando os movimentos dos deputados federais, denominados outrora como 300 picaretas com anel de doutor pelo então deputado Luis Inácio Lula da Silva.

Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou, mas quando Luis Inácio foi Presidente, tratou de saber negociar muito bem com os 300 picaretas, os 81 senadores e também com o mundo afora. Picaretas ou não, eram os eleitos e representaram, durante certo período e de alguma forma, os que os elegeram. Ao estilo do próprio Lula, a historinha acima nos serve para revelar que, em política, importa menos as dicotomias Bem X Mal, Correto X Incorreto, Verdadeiro X Falso, e importa mais fatores como: acesso a informação, debate amplo e irrestrito de propostas, transparência nos processos e direito ao voto secreto.

            Com o objetivo de buscar tais informações, de pedir mais acesso, de sugerir mais amplitude e de promover mais transparência, este Editorial relaciona alguns porquês. Ressalta-se, contudo, que tais questionamentos não são direcionados a esse ou aquele candidato, ao atual Reitor ou ao Vice-Reitor, a essa ou aquela pessoa específica. São, sobretudo, alguns dos porquês que deveríamos carregar a tira colo durante o período que vivemos em uma Universidade Pública.

 

Por que não perguntar? É preciso sempre levantar a voz contra o “psssiu”, contra o “agora não”, contra o “esse não é o lugar para esse tipo de pergunta”, contra o “isso já foi respondido em tal lugar”, contra o “não temos responsabilidade sobre isso”, contra o “nós fizemos o nosso melhor”, contra o “nós queremos o melhor para todos”, e qualquer outro blá blá blá eleitoreiro. É sempre hora de perguntar. E, em momentos como esse, é hora encostar na parede, e a melhor maneira de fazer isso é a maneira não violenta, aquela que faz a pergunta inteligente e muito bem fundamentada.

Vejam: semanas atrás, nenhuma das duas chapas respondeu satisfatoriamente os questionamentos sobre suas posições com relação à lotação dos cursos de Engenharia no Campus de Diamantina. A Chapa 1, na apresentação para os alunos do BC&T dia 08 de abril, respondeu que a decisão deveria ser do órgão colegiado competente (e foi, do CONSEPE), sem se pronunciar sobre os processos (políticos e educacionais) que colocaram as Engenharias na FACET no Big Bang produzido pelo REUNI (quando tudo começou!) ou sobre os processos (políticos e educacionais) que fundamentariam a transferência das Engenharias para o ICT. A Chapa 2, em campanha pelas salas de aula dos alunos do BC&T, respondeu que era a favor que o BC&T e as Engenharias ficassem em uma única unidade, sem se pronunciar sobre as consequências para as unidades já existentes (FACET e ICT) eventualmente produzidas por uma possível união.

A passagem aconteceu e os debates sobre o assunto foram mínimos. Os alunos do BC&T não discutiram, os professores do ICT discutiram minimamente em algumas reuniões. As duas Unidades pouco se reuniram.

As perguntas, caros leitores, pressionam os inquiridos a se posicionar. Continuem perguntando... mesmo depois das eleições.

 

Por que CA? O papel do CAD BC&T (Centro Acadêmico Diamantinense do Bacharelado em Ciência e Tecnologia de Diamantina) é fundamental durante períodos como esse. Mesmo que os membros do CAD tenham tornado públicas suas preferências por uma das Chapas, deveria ter sido papel do CAD, como instituição representativa, proporcionar aos alunos que representa o maior número e a melhor qualidade de informações sobre o processo eleitoral: quem são e onde estão lotados os candidatos, quais as propostas das Chapas para todas as esferas da Universidade, quais as posições das Chapas sobre os pontos mais polêmicos, etc. O voto dos membros do CAD pode sim sempre se tornar público, mas a principal função do CAD BC&T é cuidar dos interesses dos alunos, e, em períodos eleitorais, o principal interesse é por informação. O voto de cada aluno do BC&T é individual. Nenhum aluno deverá se sentir obrigado a votar com o CAD BC&T, mas deverá procurá-lo em busca de informações relevantes para sua decisão.

 

Por que Chapas incompletas? Para além das regras que fundamentam o processo eleitoral para sucessão da Reitoria na UFVJM, a Universidade não é dirigida apenas por Reitor e Vice-Reitor. O Reitorado é o governo também dos Pró-Reitores das seguintes Pró-Reitorias:

 

Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis - PROACE

Pró-Reitoria de Administração - PROAD

Pró-Reitoria de Extensão e Cultura - PROEXC

Pró-Reitoria de Graduação - PROGRAD

Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação - PRPPG

Pró-Reitoria de Planejamento e Orçamento - PROPLAN

 

Portanto, seis outros gestores importantes ajudarão Reitor e Vice-Reitor na condução da Universidade pelos próximos quatro anos. Porque não tivemos o direito de eleger também aqueles que trabalharão conosco mais de perto?

A Chapa 1 pouco falou sobre isso. Estranho é o caráter apolítico da proposta da Chapa 2, que os Pró-Reitores fossem eleitos pela Comunidade Acadêmica posteriormente, em outras eleições. Não seria mais produtivo se as Chapas pleiteantes ao Reitorado apresentassem suas propostas completas para cada uma das Pró-Reitorias, e seus futuros Pró-Reitores?

 

Por que tão pouco tempo para as Chapas aparecerem? Tivemos um único debate das chapas em Diamantina, no dia 28 de abril no anfiteatro do Campus I. Superlotado, obviamente. É incompreensível que não tenhamos realizado mais do que um debate. Deveríamos ter participado de um debate por período, em dias diferentes, assim não só resolveríamos o problema da superlotação e improdutividade do debate, como também ampliaríamos a transparência do processo eleitoral. E ainda tivemos um feriado no meio. Outra pergunta poderia ser feita: a quem interessou aparecer por tão pouco tempo?

 

Por que votar? Aqui cabe não somente perguntar se devemos participar do processo de sucessão da Reitoria. Quem se abstiver se absterá da participação do futuro da UFVJM. Cabe perguntar também sobre os motivos que não deveriam habitar nossas mentes na decisão por essa ou aquela chapa. Não deveremos votar em características pessoais, como simpatia/antipatia, idade, estilos de roupa, linguagem, formação acadêmica. Sim, formação acadêmica também não. Eleger é muito mais complicado do que julgar a partir de uma lista de valores.

A título de exemplo, vale lembrar que os dois últimos Fernandos que o Brasil elegeu, o primeiro porque tinha uma camisa bonitinha e o segundo porque “falava bonito” e lecionado na Sorbonne, produziram complicações extremas para o país. O primeiro foi impedido de governar e com o segundo enfrentamos seis greves nas Universidades Federais nos últimos 5 anos de seu governo, de 97 a 2002.

A pergunta que cabe aqui é: Ouvimos, assistimos, presenciamos a apresentação de propostas concretas, bem formuladas, que atendam a Universidade de forma global e, ao mesmo tempo, preocupam-se com os problemas mais cotidianos da vida universitária?

Boa eleição para todos nós!

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