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Quando as portas se abrem para uma sociologia da ciência: Thomas Kuhn e o modelo de eficácia das ciências naturais[1]

postado em 3 de out de 2011 14:28 por André Luiz Covre

Raquel Anna Sapunaru

 

Até a primeira metade do século XX, a tradição anglo-saxônica da filosofia da ciência representada por Karl Popper, compartilhava a idéia de que os surpreendentes avanços da ciência surgiram graças à aplicação de um poderoso conjunto de princípios e regras, raciocínios e procedimentos que permitiram avaliar objetivamente as hipóteses e teorias que são propostas numa atividade científica. As metodologias e seus métodos científicos constituíam um modo privilegiado de conhecer o mundo com um rigoroso controle de qualidade das hipóteses, teorias e progressos. Em suma, a tarefa principal da epistemologia era concebida como a formulação precisa das regras metodológicas que garantiriam a correta prática científica e o autêntico conhecimento.

Essa idéia geral de metodologia continha a base da clássica filosofia da ciência: o empirismo lógico e o racionalismo crítico. A seu turno, estes tinham como base teses tais como: o realismo, a demarcação, a ciência e o progresso acumulativos, a distinção entre observação e teoria, a precisão de conceitos científicos e termos empregados na ciência, e os contextos de descoberta e verificação[2]. Contudo, a partir dos anos sessenta, muitas dessas idéias foram severamente questionadas por uma série de concepções que respondiam pela necessidade de explicar como a ciência muda e se desenvolve. Assim, estas concepções surgem de uma reflexão filosófica profundamente ligada às análises históricas da prática científica. Entre os principais autores dessa concepção alternativa, destacamos: Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos e mesmo sem pertencer ao grupo, porém, com orientações muito parecidas, Larry Laudan. Particularmente Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, promoveu um desvio profundo na epistemologia contemporânea, tirando-a da posição logicista tradicional e colocando-a numa posição mais sociológica, altamente vinculada à história da ciência. O filósofo acreditava que uma teoria científica se desenvolve seguindo um número finito de passos que se repetem ciclicamente, conforme as teorias vão substituindo umas às outras.

Inicialmente, só haveria a “pesquisa científica inicial” ou “coleta inicial de fatos”. Nesta etapa trabalhariam apenas um pequeno conglomerado de cientistas, composto basicamente de estudantes, pesquisadores já graduados e outros profissionais interessados diretamente em desenvolver essa “pesquisa científica inicial” e/ou resolver quaisquer problemas ligados a ela. É importante ressaltar que nesse conglomerado de cientistas, existirão várias visões, provenientes de diferentes escolas científicas, trabalhando conjuntamente. Não há, neste momento, uma linha de pensamento única a ser seguida. O que há são indivíduos que, isoladamente, elaboram suas próprias hipóteses sobre a pesquisa científica, fazendo uso de suas próprias linguagens, conhecimentos e crenças. Assim, essa “pesquisa científica inicial” avança em inúmeras direções, mas a utilização de conceitos distintos, provenientes de escolas distintas, pode produzir um efeito de desmembramento da realidade em unidades, objetos, propriedades e relações de naturezas diversas, em virtude desta falta de unidade de pensamento. Por sua vez, cada descrição dessa realidade desmembrada faz menção a um mundo distinto, pois está dividido, construído e classificado segundo concepções muito diferentes. Grosso modo, cada cientista isoladamente realiza suas pesquisas dentro de um universo de noções muito particulares e pessoais, o que pode comprometer demasiadamente a eficácia desta “pesquisa científica inicial”. Portanto, é impossível não notarmos o caráter “anárquico” que se estabelece nesse primeiro passo, onde nos parece que todos, de algum modo, podem estar corretos quanto ao rumo que a pesquisa científica deva tomar.

Ainda sobre a eficácia da pesquisa científica, Kuhn defende a tese de que essa eficácia é maior para as ciências conhecidas como ciências plenamente desenvolvidas ou hard science ou naturais, se comparadas à eficácia das ciências humanas e/ou sociais. Essa tese fundamenta-se no fato de que, em determinado momento, nas ciências naturais, o conglomerado de cientistas da “coleta inicial de fatos” irá dar lugar a outra forma mais concisa e organizada de trabalhar para a realização dessa pesquisa científica; o mesmo já não ocorre com as ciências humanas e/ou sociais. Levando em conta sua própria experiência de físico, o autor concluiu que a qualidade, a capacidade e a inteligência dos cientistas dedicados às ciências naturais, não eram em nada diferente da qualidade, da capacidade e da inteligência dos cientistas dedicados às ciências humanas e/ou sociais. Sendo assim, o que, de fato, ocorria com as ciências humanas e/ou sociais era bem simples: essas não haviam chegado, por meio de seus cientistas, a um consenso de conceitos capaz de tirá-las dessa primeira etapa, ou seja, essas ciências permaneciam sempre num estado de “coleta inicial de fatos”.

Um cientista, devido a circunstâncias que podem variar de acordo com o contexto histórico, poderá exercer várias tarefas como: descobrir algo novo, escrever manuais e/ou fórmulas, desenhar instrumentos ou desenvolver uma teoria. Através do êxito dessas tarefas, este mesmo cientista poderá resolver os problemas não resolvidos pelos outros membros do conglomerado de cientistas ou pelas escolas científicas por eles representadas na “coleta inicial de fatos”. Na sequência, este êxito desencadearia de imediato a “etapa de conversão”, onde se forma a “comunidade científica” que se origina do conglomerado de cientistas, anteriormente dispersos, porém, agora concentrados em torno daquele cientista ou escola que obteve o êxito inicial. Essa conversão dos membros do conglomerado de cientistas em uma “comunidade científica” passaria mais por um insigh, semelhante a uma “conversão religiosa”, do que por um debate cujos argumentos lógicos seriam absorvidos em detrimento de outros. Estes cientistas abandonam suas posições antigas e simplesmente passam a seguir a “nova ordem”. A etapa de conversão poderá durar o tempo que for necessário para que todos os membros daquele conglomerado de cientistas estejam de acordo com a “nova ordem”, isto é, até que todos estejam concentrados em torno da mesma escola de pensamento.

Portanto, para Kuhn, uma “comunidade científica” é aquele grupo de pessoas que praticam conjuntamente uma profissão científica e que estão ligados por elementos comuns para levar a cabo a resolução de metas e objetivos de sua pesquisa científica. Os membros de uma “comunidade científica” partilham de uma mesma formação, baseada em manuais e conferências de uma tradição científica determinada. Isto permite que haja uma grande comunicação no grupo e uma adequação de juízos que, no entanto, não exclui as discrepâncias. Além disso, a “comunidade científica” pode se dedicar ao aspecto mais sutil da pesquisa científica porque não tem que justificar os princípios teóricos nem os conceitos utilizados em seu campo, já que todos os membros estão de acordo.

Ora, sendo de suma importância a formação de uma “comunidade científica” para o desenvolvimento de uma pesquisa científica e, sendo esta “comunidade científica” fruto de uma “conversão” do conglomerado de cientistas, cujos membros pertenceriam a diferentes escolas de pensamento, a principal característica da “ciência normal”, desenvolvida dentro do que Kuhn denominou de “paradigma”, torna-se o consenso dos cientistas em torno de uma escola de pensamento para o desenvolvimento de uma pesquisa científica. Para Kuhn, a “ciência normal” seria a “[...] atividade na qual a maioria dos cientistas emprega inevitavelmente quase todo seu tempo, é baseada no pressuposto que a comunidade científica sabe como é o mundo.” (2000, p.20). Um “paradigma” é um modelo ou exemplo a ser seguido por uma “comunidade científica” a fim de solucionar seus problemas e ele determina também o modo como tais problemas serão solucionados. Grosso modo, um “paradigma” comporta uma maneira de entender o mundo, explicá-lo e manipulá-lo. Sobre os “paradigmas”, o filósofo pondera: “Considero paradigma as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.” (2000, p.13).

Dessa forma, um “paradigma” oferece uma base de afirmações teóricas e conceituais àqueles que o seguem e uma certa concordância sobre os problemas urgentes a resolver, algumas técnicas de experimentação concretas e alguns pressupostos metafísicos que enquadram e dirigem a pesquisa. Ainda sobre os “paradigmas”, o filósofo nos diz que: “Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade científica compartilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em algumas pessoas que compartilham um paradigma” (2000, p.219). No entanto, chegaria o momento em que certos inconvenientes internos esboçados por uma experiência paradigmática começariam a gerar uma situação de tal natureza que acabaria por provocar um colapso na “comunidade científica” e no “paradigma” em questão. Esses inconvenientes internos “especiais” que levariam a este colapso teriam, sem dúvida, sua origem em fatores de ordem externa e/ou na “comunidade científica”, já que o “paradigma” garante que os inconvenientes internos “comuns”, isto é, os “quebra-cabeças”, sejam resolvidos a contento. Diante de tais inconvenientes internos “especiais”, os participantes da pesquisa científica, durante o período da “ciência normal”, perceberiam o surgimento de um processo de crise, uma certa desorientação, um desconforto, que se refletiria em um grande questionamento a respeito do “paradigma” vigente, de seus instrumentos e manuais. É importante, nesse momento, recordarmos que o que precede essa crise é somente a prática incessante da “ciência normal”, isto é, a solução de problemas ou “quebra-cabeças”. Quando esses “quebra-cabeças”, por motivos externos, tornam-se “anomalias”, começa o período de crise.

Uma boa definição para a etapa das “anomalias” seria dizermos que esta é a etapa onde se dá o surgimento de um ou mais problemas, de naturezas diversas, que não podem ser articulados junto com o “paradigma”. Em um primeiro momento, frente à “anomalia”, os cientistas tendem a não questionar o “paradigma”, ao contrário, tendem a ignorá-la. Estrategicamente, para defender o “paradigma”, a “comunidade científica” esconde as “anomalias”, utilizando-se, às vezes, de hipóteses ad hoc, na esperança de tratar-se somente de um engano que, com o tempo, iria se desfazer. É interessante percebermos que a detecção de uma “anomalia” não é uma tarefa tão fácil como às vezes pode nos parecer, ainda mais se há um “paradigma” anterior que sustenta algo contrário a essa “anomalia”. É por essa razão que os cientistas têm a tendência de transformar em uma simples perturbação o que poderia ser, na verdade, uma “revolução”, em termos científicos. Sobre a adesão de uma “comunidade científica” a outro “paradigma” devido à presença de “anomalias”, o filósofo afirma que: “A transferência de adesão de um paradigma a outro é uma experiência de conversão que não pode ser forçada.” (2000, p.191).

Essa etapa indica também que uma “anomalia”, em um primeiro momento, não tem reconhecimento junto à “comunidade científica”. Esta tende a rejeitar, de forma veemente, a “anomalia”, declarando-a como um “mal científico” surgido a partir de um uso indevido de procedimentos não-paradigmáticos. Assim, o próximo passo, a sexta etapa, pode ser descrita como a etapa onde as “anomalias” se tornam freqüentes e começam a produzir inquietações na “comunidade científica”, gerando uma crise. No entanto, nesse momento, a crise ainda não é grande o suficiente para que o “paradigma” vigente seja abandonado de vez. O “paradigma” só começa a sofrer abalos estruturais mais adiante, isto é, na “etapa da emergência”. É nessa etapa que o “paradigma”, devido ao excesso de “anomalias” que se tornaram “contra-exemplos” e a crise na “comunidade científica”, começa a se dividir em “sub-paradigmas”, pondo em evidência novamente questões epistemológicas, de princípios ou de fundamentos científicos. Logo, até que a crise se resolva e outro “paradigma” venha a substituir esse, a “comunidade científica” não abandona o “paradigma” vigente. Somente quando um cientista realiza uma “revolução” na maneira habitual de pensar e agir, quando mudam os conceitos e os princípios e a maneira de entender e avaliar uma experiência ou instrumento, que nasce um novo “paradigma”. O nascimento desse novo “paradigma” só se dá no final da dita “revolução”. Finalmente, quando todos os membros da “comunidade científica” se renderam ao novo “paradigma”, recomeça a prática da “ciência normal”, agora administrada pelo novo “paradigma”: a esse ciclo, Kuhn chamou de “revolução científica”. Vale ressaltar que uma “revolução científica” está associada somente a um “paradigma” e a uma “comunidade científica” e essa “comunidade científica” trabalha apenas um “paradigma” por vez. Sobre esse aspecto particular das “revoluções científicas”, Kuhn nos diz que: “[...] as revoluções científicas precisam parecer revolucionárias somente para aqueles cujos paradigmas sejam afetados por elas. Para observadores externos, podem parecer etapas normais de um processo de desenvolvimento [...]” (2000, p.26).

Uma outra questão importante e bastante controversa da epistemologia kuhniana é a questão do “progresso” da ciência. Vimos que o “paradigma” teria como tarefa principal oferecer uma referência adequada à “comunidade científica” e a “ciência normal”. A seu turno, sobre a “ciência normal” estariam apoiadas as pesquisas da “comunidade científica” dedicadas à resolução exaustiva e meticulosa de todos os problemas mais urgentes, sem que esta comunidade tivesse que se preocupar com a revisão de seus principais fundamentos. Essa plena dedicação da “comunidade científica” faria com que a resolução de problemas se fizesse de uma maneira eficaz e, esta eficácia da “comunidade científica” em suas pesquisas seria o “progresso na ciência normal”. Para este “progresso”, contribuiriam dois fatores circunstanciais: 1) o isolamento do grupo, dentro da sociedade, que ditaria o dinamismo nas pesquisas; e 2)a pesquisa especializada baseada nos manuais e conferências, que faria com que o cientista assumisse plenamente o “paradigma” e estivesse preparado para resolução dos problemas e crises de sua tradição, mesmo que faltasse a seu trabalho, originalidade e criatividade.

A segunda modalidade de “progresso” poderia ser descrita como o “progresso da ciência extraordinária”, isto é, o “progresso” entre “paradigmas”. Logo de início, devemos perceber que essa mudança de “paradigma” associada ao “progresso” científico, não deve ser entendida como uma aproximação cada vez mais precisa da “realidade”, mas sim como um aperfeiçoamento de idéias que conservam alguns de seus elementos de base. É importante deixar claro que Kuhn não acredita que a realidade desempenhe um papel significativo para a ciência, no entanto, o autor não nega a existência de uma realidade: ele apenas considera que o cientista somente discute os fatos tais como esses se apresentam em um “paradigma”, isto é, tal como um “paradigma” os constitui. Conseqüentemente, não há para a ciência uma realidade no sentido absoluto e independente do “paradigma”, pois a realidade kuhniana seria constituída de fatos interpretáveis através do “paradigma” vigente. Assim, quando ocorresse uma “revolução científica”, a realidade deixaria de ser o que ela é para assumir a forma determinada pelo novo “paradigma”.

Portanto, o autor não aceita a tese de que as teorias científicas, na medida em que os “paradigmas” vão surgindo e/ou sendo substituídos por outros, estejam fornecendo mais precisão á estrutura do mundo real. O desenvolvimento científico é uma seqüência histórica na qual, através das “revoluções científicas”, os “paradigmas” são substituídos por outros e assim sucessivamente. Para Kuhn, o “progresso” científico só poderia ser medido pela comparação entre o êxito da “ciência normal” do “paradigma” antigo e o êxito da “ciência normal” do “paradigma” novo, por isso não se poderia falar de “progresso” científico em termos de uma realidade absoluta, ou seja, como um avanço em alguma direção supostamente privilegiada do mundo. Os “paradigmas” se substituem uns aos outros ao longo da história e resolvem mais e diferentes problemas, porém isso nada tem a ver com uma realidade absoluta. A realidade é o próprio “paradigma” e o “progresso” é a eficiência cada vez maior dentro deste.



[1] Este breve artigo tem como objetivo principal introduzir o tema do curso de “Questões de Antropologia e Filosofia da Ciência” (CTD165) que ministrarei no próximo semestre.

[2] Contudo, o significado dessas teses varia para o empirismo lógico e o racionalismo crítico, a saber: a) o realismo, para o empirismo lógico, seria uma tentativa de descobrir a verdade através da observação e da indução e para o racionalismo crítico, a observação seria seu princípio de falsificação; b) sobre a demarcação, o empirismo lógico gostaria que esta tese fosse forte o suficiente para negar tudo aquilo que não é ciência e o racionalismo crítico veria as teorias não-científicas como fonte possível de inspiração para teorias que seriam falsificadas ou não; c) a ciência e o progresso acumulativos do empirismo lógico teriam um sentido de soma através da observação e para o racionalismo crítico este progresso se daria pelo descarte de teorias que foram falsificadas; d) a distinção entre observação e teoria no empirismo lógico se daria no sentido observação/teoria e no racionalismo crítico o sentido seria o oposto; e) a precisão de conceitos científicos e termos empregados na ciência seria típico do empirismo lógico e f) o contexto de descoberta no empirismo lógico seria a observação e no racionalismo crítico seria a invenção em geral, e o contexto de verificação no primeiro seria a análise lógico-lingüística e no segundo seria a falsificação.

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