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Quando a Filosofia influencia a Física: Descartes e Newton

postado em 5 de jun de 2011 18:39 por Jornal BC&T

Resumo: Este artigo discute, brevemente, dois aspectos da Filosofia natural cartesiana que se destacam como focos de inspiração ou oposição à Filosofia natural newtoniana, a saber: o movimento e o atomismo antigo grego.

 

O filósofo e historiador da ciência Howard Stein, em seu artigo “A metafísica de Newton”, afirma que a verdadeira inspiração de Newton para a criação de sua revolucionária Física foi sua intensa oposição à Filosofia de Descartes. As diferenças entre Newton e os cartesianos (seguidores das ideias de Descartes) têm início com a própria definição de Filosofia natural de Descartes. Para Descartes e os cartesianos as regras da natureza têm sua origem na perfeição divina. A existência de Deus e Seus feitos no ato da criação são suficientes para o estabelecimento das características naturais de nosso ambiente. Porém, Newton discorda desta posição. Para ele, nosso conhecimento de Deus provém somente de Sua imensa sabedoria, Sua excelente idéia das coisas e das causas finais. Logo, a existência de Deus e seus feitos no ato da criação por si só não seriam suficientes para estabelecer as características naturais de nosso ambiente. Para Newton, faltava algo...

Mesmo assim, a Filosofia natural cartesiana e seus principais fundamentos influenciaram o pensamento de outros filósofos e cientistas desde o século XVII até o final do século XVIII, como por exemplo, Huygens, Leibniz e até mesmo Gauss. Segundo Alexandre Koyré, em seu artigo “As origens da ciência moderna”, através do desenvolvimento de uma poderosa mecânica e de uma visão de mundo baseada em formas geométricas, Descartes juntamente com Galileu e Newton teriam sido os principais responsáveis por uma mudança radical na forma de ver, pensar e viver a natureza.

A Filosofia natural de Descartes estava fundamentada no conceito de substância. Para Descartes a substância é a primeira categoria de “ser” existente no mundo. No cartesianismo há dois tipos distintos de substâncias, a saber: a substância pensante e a substância extensa ou extensão (como é mais conhecida). No que tange a Física, a substância pensante é os atributos que a mente de um observador coloca nas coisas, por exemplo: cheiro, sabor, cor, entre outras. A extensão (largura, altura e profundidade de um corpo) seria o próprio corpo. Observo que tudo é extenso no mundo de Descartes: não há lugar para o vazio. Por isso, creio que cabe aqui uma pergunta simples: Se tudo é extenso, como se pode distinguir um corpo de outro, uma coisa da outra? De acordo com Descartes, o que distingue um corpo de outro é seu movimento. Daí, para os cartesianos, a Filosofia natural consiste no estudo e exposição do movimento dos corpos e nas diversas variações deste movimento, interno ao próprio corpo. Já para Newton, o movimento tem um caráter dinâmico, ligado ao conceito de força, externo ao corpo.

Diante desta definição, cabe outra questão: Como explicar o que Descartes chama de movimento? Inicialmente, a definição cartesiana de movimento limitava-se àquilo que fazia os corpos mudarem de um lugar para outro. Porém, esta definição se alteraria com o tempo, transformando-se em uma complexa engrenagem relativista, impossível de ser encaixada na Física newtoniana. Ao longo de seus estudos, Descartes transformou sua definição de movimento de uma simples mudança de lugar para uma transferência do corpo, ou de uma parte deste, de uma vizinhança contígua para outra, onde essas vizinhanças contíguas seriam outros corpos em repouso em relação ao corpo que se movia (!?). É importante ressaltar que para Newton, ao contrário de Descartes, as definições de movimento e outros conceitos eram muito claros. Para Newton:

 

Def: I. Um lugar é uma parte do espaço que uma coisa preenche adequadamente.

Def: II. Um corpo é aquilo que preenche um lugar.

Def: III. Repouso é permanecer no mesmo lugar.

Def: IV. Movimento é mudar de lugar.

(NEWTON, 1978, p.122).

 

Diferentemente de Newton, os princípios e regras que governam o movimento cartesiano não poderiam nem deveriam ser verificáveis por seus próprios significados ou por qualquer observação empírica. Estes princípios e regras provinham diretamente da imutabilidade de Deus, da constância de Suas ações ao preservar o mundo a cada momento. Isso implica na conservação total da quantidade de movimento do mundo em si mesma, isto é, na conservação de todos os corpos em movimento, simultaneamente.

Outro ponto de inspiração para a Física de Newton, baseado em sua discordância com Descartes, era a questão do atomismo grego antigo (doutrina dos pré-socráticos Demócrito, Epicuro e Leucipo que apregoavam que a matéria era finitamente divisível e sua parte última era o átomo). Descartes não aceitava a indivisibilidade atômica e o espaço vazio. Contrariamente, para Newton a matéria tinha uma parte última e havia espaços vazios entre as partes. De acordo com Newton, o mundo não era, nem poderia ser plenum como queria Descartes. A esta parte última, Newton chamou de corpúsculo, um corpo minúsculo, rígido e indivisível.

Vale ressaltar também que Newton rejeita o conceito de extensão cartesiano, mas não rejeita a extensão dos corpos em si. Para ele a extensão se confundia com o próprio espaço ocupado pelos corpos, pois ela não era somente uma característica dos corpos. Grosso modo, a extensão não requereria um corpo que fosse extenso, visto que ela teria uma existência própria.

Concluindo, Newton e Descartes tinham em comum a Filosofia mecanicista e é através dela que a Filosofia natural de Newton tem início: ela é o ponto de partida para a construção da Física newtoniana mesmo que posteriormente ele viesse a trair radicalmente esta Filosofia mecanicista ao introduzir o conceito de ação à distância (um corpo agindo sobre outro sem que houvesse contato direto entre eles) para explicar a dinâmica dos céus e da Terra.

 

Referências:

KOYRÈ, A. As Origens da Ciência Moderna: Uma Nova Interpretação. 1956. In: Estudos de História do Pensamento Científico. 2ª.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991, p.56-79.

STEIN, H. Newton’s Metaphysics. In: COHEN, I. B.; SMITH, G. The Cambridge Companion to Newton. Cambridge: Cambridge University Press. 2002, p. 256-307.

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