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Paul Feyerabend: o vingador de Ícaro[1]

postado em 24 de mar de 2011 09:00 por André Luiz Covre   [ atualizado em 25 de mar de 2011 15:00 por André Silva ]

Enquanto o poeta afirma que “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”[2], eu me pergunto: por quê? Ícaro ganhou os céus com um par de asas coladas a cera e Galileu o ganhou desvendando seus mais obscuros mistérios. O deus Hélio puniu Ícaro promovendo sua queda e consagrou Galileu ao consentir, desavergonhadamente, que ele visse e até desenhasse algumas de suas imperfeições. As asas de Ícaro foram construídas a imagem dos pássaros e a luneta de Galileu deu origem ao método matemático. Hélio enfim se calou e descansou.

Com o estabelecimento do método matemático de Galileu, a ciência progrediu e a tecnologia passou a fazer parte da vida dos homens. Porém, segundo alguns epistemólogos preocupados com o avanço desenfreado da ciência, o método de Galileu, em seu estado puro já não é suficiente para fazer a “boa ciência”. Em linhas gerais, fazer uma ciência que resulte em tecnologia exige a invenção paulatina de novos métodos. Porém, que métodos são estes? Quais são as suas características?

Segundo o filósofo Paul Feyerabend, adotar o pluralismo metodológico seria benéfico para a prática científica, já que o principal objetivo do método científico único, em seu estado da arte, poderia ser descrito como somente uma codificação ou “engessamento” de regras metodológicas formadoras do núcleo da racionalidade científica. O principal argumento de Feyerabend em defesa deste pluralismo metodológico é baseado na idéia de que o conhecimento humano não foi totalmente explorado, e, portanto, ainda há muitas coisas por descobrir, conhecer e construir. Por conseguinte, não há razões válidas para que os pesquisadores e cientistas se atenham a uma única regra metodológica, ou até mesmo a uma única teoria científica para a plena realização de seus trabalhos. Feyerabend em seu livro Contra o Método recorre a própria história da ciência, mais especificamente a prática de Galileu, para defender e confirmar que esta falta de “engessamento” metodológico seria um modus operantis cientificamente producente. Segundo a interpretação histórica de Feyerabend, Galileu usou técnicas de persuasão, retórica associada a teses consideradas científicas para convencer os aristotélicos detentores do poder de suas teorias.

Nesse cenário onde co-habitavam o geocentrismo escolástico e o emergente heliocentrismo copernicano, o pluralismo metodológico se apresenta como uma alternativa viável e até mesmo lógica para atender aos anseios da ciência de conhecer o mundo e sua realidade objetiva. Estar aberto a novas metodologias deveria ser uma prática normal dos homens de ciência, pois, em última instância, para se aproximar desta realidade objetiva, os cientistas não deveriam descartar, sem julgamento prévio, algo que estivesse em discordância com um “senso comum científico”. Isso seria o que a ciência, segundo sua própria história, teria feito; e esta é a posição que de fato está por trás do famoso e por vezes mal interpretado lema feyerabendiano “tudo vale”. Nas palavras de Feyerabend: “O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.”(FEYERABEND, 1993, p. 14) Isto não significa dizer que haja uma obrigatoriedade de violação de regras metodológicas a todo instante para que a ciência percorra seu caminho natural. O que o filósofo Paul Feyerabend defende é a liberdade do cientista em optar por utilizar em seus trabalhos uma ou várias metodologias, consideradas científicas ou não.

A seu turno, Feyerabend também não acreditava que o próprio progresso da ciência estivesse “amarrado” a utilização por parte dos cientistas, a um só método de pesquisa ou uma causa final. Para o filósofo, o importante em relação ao progresso científico seria discutir, debater e confrontar teorias em lugar de levar em conta apenas os fatos empíricos ou chegar a um resultado final. Assim, Feyerabend acredita que sem deturparmos, no bom sentido, um conceito ou teoria fica muito difícil criar um novo conceito ou uma nova teoria, isto é, progredir. Para Feyerabend, a melhor maneira de se deturpar um conceito ou uma teoria seria, sem dúvida, através da violação de regras metodológicas, ou seja, agir “contra-indutivamente”.

No Contra o Método, Feyerabend demonstra acreditar que toda observação estaria sempre impregnada de uma ou várias teorias, pois “a ciência não conhece fatos nus” (FEYERABEND, 1993, p.12). Uma nova teoria não estaria indo somente contra pensamentos já bem estabelecidos e consagrados, mas também contra observações já fundamentadas. Qualquer teoria que fosse contra as teorias já consagradas também iria contra os fatos abarcados por elas. Dessa forma, para Feyerabend, uma teoria que se comporte contra-indutivamente não deveria ser descartada simplesmente por estar indo contra fatos já estabelecidos. Inversamente, o filósofo defende a seguinte hipótese: se uma teoria caminha contra fatos já estabelecidos significa que ela questiona a própria teoria vigente que se encontra atrás destes fatos já estabelecidos. Consequentemente, esta nova teoria emergente seria a criadora de novos fatos que podem, finalmente, por a prova a teoria vigente. Neste contexto podemos observar que, para Feyerabend, até mesmo os fatos não possuiriam o poder da verdade absoluta. Logo, a decisão sobre se uma teoria deve ou não prevalecer sobre uma outra não deveria estar baseada somente em fatos. Isto ocorre porque os fatos estariam sempre contaminados e impregnados por teorias de diversas ordens, o que significa dizer que talvez eles não fossem tão imparciais com relação à teoria que ele gerou.

Finalizando, se somente os fatos refutassem as teorias, não existiria nenhuma teoria, e, por sua vez, se uma teoria estivesse em sincronia com todos os fatos, ela nunca poderia ser refutada, a não ser com o auxílio de outras teorias, o que nos parece, tout court, tratar-se também de uma ação “contra-indutiva”. Grosso modo, as maiores crenças do polêmico filósofo Paul Feyerabend com relação à ciência e o seu progresso seriam: discutir, debater e confrontar teorias de todas as ordens, em lugar de levar em conta apenas fatos empíricos; o domínio de uma teoria sobre todas as outras deveria ser evitado a todo custo e, caso este domínio ocorresse, seria uma ação contrária ao progresso científico. Destarte, concluo descompromissadamente que na ordem suprema do cosmos, enquanto Galileu foi o escolhido do deus Hélio, Feyerabend veio ao mundo para vingar Ícaro. Afinal, que mal há em imitarmos os pássaros?[i]


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[1] Dedico esta coluna a um grande mineiro, meu orientador de mestrado Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos, fã incondicional de Paul Feyerabend.

[2] “Tendo a Lua” de Herbert Vianna.

[i] FEYERABEND, Paul K. Against Method. 3ª. ed. Nova Iorque: Verso, 1993.

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