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Espaço Cedido[i] [ii]

postado em 13 de abr de 2011 12:43 por André Luiz Covre   [ atualizado em 14 de abr de 2011 20:33 por André Silva ]

“Eis-me” aqui, mais uma vez, falando o óbvio: Platão sabia das coisas! Dessa vez o assunto é o conhecimento, mas só o conhecimento verdadeiro. E é justamente sobre a aquisição do conhecimento verdadeiro que Platão, em seu diálogo Teeteto, descreveu uma das mais belas ideias da Filosofia. Conhecida como “a metáfora da parteira”, Platão na voz de Sócrates compara o trabalho do filósofo com o da parteira. Como? Ele afirma que a parteira quando ajuda a trazer um ser à vida causa dor, pois dar a luz dói. Do mesmo modo, o filósofo também ajuda àquele que o ouve a pensar, a conhecer a si mesmo e as coisas. Bem, isto também dói. E muito...

Longe de querer me comparar a Platão (afinal, quem sou eu), tento modestamente, à imagem de meu mestre, formar engenheiros melhores. Falo dos futuros engenheiros que, ao olharem para trás perceberão que conseguiram estudar tudo aquilo que precisavam para serem o que são. Estou falando de estudar, entre números e fórmulas, o método e, como ele nos ajuda a chegar ao conhecimento. Não falo de regras ou normas, pois estas não precisam ser entendidas em sua natureza. Falo de compreender o método em suas raízes e, muito mais que isto, dominá-lo ao ponto de poder até escrever sobre ele! Falo do método científico.

Por essas razões, é com alegria que cedo este espaço para alguns desses futuros engenheiros. Vou dividi-los em dois grupos: “Os ousados” e “Os precisos”, pois como Sócrates bem o disse, a verdadeira sofia está muito além de um simples discurso...

 

“Os ousados”: André Felipe Ferreira Silva; Gabriel Rodolpho Lima de Freitas; Juliana Nascimento Rocha; Taís Aparecida Reis

 

O Conhecimento Científico

O conhecimento é dito como a criação intelectual das representações significativas da realidade. O indivíduo procura entender o meio partindo dos pressupostos de interação entre si e seus objetivos. É uma forma de explicar os fenômenos das relações, a saber: sujeito/objeto, homem/razão, homem/desejo ou homem/realidade. Deste modo, o conhecimento, dependendo da forma pela qual se chega a essa representação significativa, pode ser classificado em diversos tipos, como: mítico, artístico, filosófico, religioso, ordinário (senso comum ou empírico) e científico. As duas últimas formas são as que estão mais presentes na vida diária do homem.

O Conhecimento do senso comum surge da relação do ser com o mundo, através da necessidade de resolver problemas imediatos, elaborados de forma espontânea e instintiva. É um conhecimento que valoriza a percepção sensorial, fundamentado na tradição e limitado às informações pertinentes ao seu uso e é incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações sustentadas em crenças individuais. Não há uma determinação na linguagem utilizada, contém termos e conceitos vagos, não há um conhecimento sobre os limites de validade das suas crenças. Sua eficiência e êxito são elevados para aquelas situações que se repetem com um padrão regular. Assim, fica-se, porém, sem saber explicar as causas do insucesso ao se modificarem algumas de suas circunstâncias ou condições.

Já o conhecimento científico surge da necessidade de o homem não assumir uma posição meramente passiva, sem poder de ação ou controle dos fenômenos. Otimizando o uso da racionalidade, propõe uma forma sistemática, metódica e crítica de desvendar, compreender, explicar e dominar o mundo. O conhecimento científico é um produto resultante da investigação científica, alcançando um conhecimento confiável. Na pretensão de construir uma resposta segura para responder às duvidas existentes, o conhecimento científico propõe-se atingir dois ideais: o ideal da racionalidade, que está em atingir uma sistematização coerente de conhecimento e o ideal da objetividade que, por sua vez, pretende que as teorias científicas sejam construções conceituais que representem com fidelidade o mundo real. Possui uma linguagem específica e um alto poder de crítica. Um conhecimento é considerado científico quando segue o método cientifico. O método científico pode ser definido como uma forma crítica de produzir um conhecimento científico que consiste na proposição de hipóteses bem fundamentadas e estruturadas em sua coerência teórica (verdade sintática) e na possibilidade de serem submetidas a um teste crítico severo (verdade semântica) avaliado pela comunidade científica de forma intersubjetiva (verdade pragmática).

Embora seja mais seguro que o conhecimento do senso comum o conhecimento científico também é falível. Portanto, o que distingue o conhecimento científico dos outros não é o assunto, o tema ou problema. O que o distingue é a forma especial que adota para investigar os problemas, a postura científica que consiste em não dogmatizar os resultados das pesquisas, mas tratá-los como eternas hipóteses que necessitam de constante investigação e revisão crítica.

 

“Os precisos”: Alanderson Guido Oliveira; César Augusto Ribeiro; Marcelo Oliveira Godinho, Mateus Felipe Louredo Araújo

 

Ciência: uma vertente em constante evolução

Grandes feitos e teorias foram elaboradas durante o decorrer da história, mas em especial dois acontecimentos chamaram a atenção da humanidade e colocaram em pauta a dualidade dos caminhos que a ciência possui. O primeiro momento foi durante um eclipse solar em que cientistas comprovaram com êxito a teoria de Einstein de que o espaço não era reto, mas sim curvado. No entanto a face “perversa” do saber científico mostrou-se em 1945, quando Hiroxima e Nagasáqui foram destruídas por bombas atômicas. Dessa forma, o homem mostrou que podia usar o conhecimento científico para dominar e controlar a natureza e até mesmo outros homens.   Alguns leigos consideram a ciência milagreira. Essa visão errônea é difundida constantemente pelos meios de comunicação em massa.

A maioria das pesquisas científicas prioriza o seu caráter prático, que consiste em conhecer os fatos, os acontecimentos e fenômenos para então estabelecer previsões e obter o controle da situação. O homem utiliza a tecnologia para o seu conforto. Numa linha do tempo de invenções, seria possível enumerar várias descobertas e feitas em distintos campos práticos de atuação: medicina, agricultura, informática, geração de energia elétrica e telefonia, por exemplo.

Atualmente, o conhecimento científico é usado de forma dominadora. Quem tem conhecimento possui poder, força e muitas vezes, riqueza. No entanto, essa visão simplista baseada apenas no caráter prático distorce gravemente os reais objetivos da ciência. O homem faz a ciência para responder as suas dúvidas e solucionar os seus problemas, dessa forma ele aprende mais sobre si e o mundo que o cerca. Entretanto, ele poderia fazer isso usando outras formas de conhecer. A questão é: qual critério usar para distinguir a ciência de outras formas de conhecer? Este critério, o método cientifico, segue passos que devem ser descritos. Para interpretar o mundo e a ciência contemporânea, surge então um desses métodos, o método científico indutivo.

 A indução, como método científico, é entendida desde Aristóteles, como o argumento que passa do particular para o geral. Não se pode conceber a indução como forma de argumentação válida e correta para se estabelecer uma verdadeira conclusão, uma vez que este método parte de uma típica postura empirista, a qual não admite lugar para a subjetividade. Os critérios subjetivos são fundamentais para explicar o problema que é objeto da investigação cientifica, já que há muitas formas de observá-los ou classificá-los. Sob o ponto de vista epistemológico, portanto, a indução é insustentável.

O método hipotético-dedutivo surge para identificar problemas contemporâneos, questionando o método anterior (indutivo) que identificava apenas os fatos e as suas generalizações. Popper, um dos pensadores dedutivistas, sugeriu que toda discussão científica partisse de um problema, originando uma teoria-tentativa, que seria provisória e, depois fosse confrontada, a fim de renovar-se sempre e eliminar cada vez mais erros e imprecisões. Qualquer que fosse a experiência, deveria ser investigada a fundo para encontrar erros e corrigi-los. Uma teoria só é válida se é feita de forma a estudar o interior de cada assunto. A visão superficial dos fatos por si só não traz explicações relevantes. Portanto, uma teoria nunca poderá ser considerada universalmente válida. Toda teoria está sujeita a erros e invalidações. Como saber então sobre a validade ou não de uma teoria? Isso é impossível. Não existe um método específico que nos dê essa resposta. Cabe aos pesquisadores seguir investigando e trabalhando sobre cada questão, a fim de superar obstáculos e corroborar cada vez mais com as teorias.

A concepção atual de ciência está muito distante das visões antigas e deterministas, que se baseavam na tentativa de buscar respostas concretas e incontestáveis. Ela nunca se fecha com uma nova descoberta ou uma nova teoria e está sempre sujeita a revisão. A ciência é o processo constante de investigação, sempre consciente de possível falibilidade. Ela evoluiu historicamente, e tornou-se não só a busca constante por novas explicações e teorias que expliquem velhos e novos problemas. Tornou-se também a busca por novos processos e métodos de investigação, que também se baseiam não em verdades irrefutáveis, mas sim em atitude crítica.


[i] Dedico esta coluna àqueles que consideram o ensino da metodologia dispensável.

[ii] Os trabalhos apresentados usaram a seguinte referência: KÖCHE, J. C. Fundamentos de Metodologia Científica: teoria da ciência e prática da pesquisa. 17.ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

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