Colunas‎ > ‎

Pensamento Filosófico

"Pensar é pensar antes" e  "Não olhe para o dedo, olhe para a lua" são duas máximas de Platão. Aparentemente simples, estas duas sentenças escondem em suas sínteses uma opção de vida, um modo de ver a vida. Logo, não são tão simples assim. Isso é a Filosofia: o amor ao saber traduzido numa forma de pensamento especial, único. Neste espaço "becetiano", não vai dar para pensar filosoficamente sobre todas as questões que nos interessam.
Por isso, resolvi me concentrar no pensamento filosófico direcionado exclusivamente às questões científicas e tecnológicas.
Por favor, não se acanhem: sugestões serão sempre muitíssimo bem-vindas!


Raquel Sapunaru

raquel.sapunaru@ict.ufvjm.edu.br

Quando as portas se abrem para uma sociologia da ciência: Thomas Kuhn e o modelo de eficácia das ciências naturais[1]

postado em 3 de out de 2011 14:28 por André Luiz Covre

Raquel Anna Sapunaru

 

Até a primeira metade do século XX, a tradição anglo-saxônica da filosofia da ciência representada por Karl Popper, compartilhava a idéia de que os surpreendentes avanços da ciência surgiram graças à aplicação de um poderoso conjunto de princípios e regras, raciocínios e procedimentos que permitiram avaliar objetivamente as hipóteses e teorias que são propostas numa atividade científica. As metodologias e seus métodos científicos constituíam um modo privilegiado de conhecer o mundo com um rigoroso controle de qualidade das hipóteses, teorias e progressos. Em suma, a tarefa principal da epistemologia era concebida como a formulação precisa das regras metodológicas que garantiriam a correta prática científica e o autêntico conhecimento.

Essa idéia geral de metodologia continha a base da clássica filosofia da ciência: o empirismo lógico e o racionalismo crítico. A seu turno, estes tinham como base teses tais como: o realismo, a demarcação, a ciência e o progresso acumulativos, a distinção entre observação e teoria, a precisão de conceitos científicos e termos empregados na ciência, e os contextos de descoberta e verificação[2]. Contudo, a partir dos anos sessenta, muitas dessas idéias foram severamente questionadas por uma série de concepções que respondiam pela necessidade de explicar como a ciência muda e se desenvolve. Assim, estas concepções surgem de uma reflexão filosófica profundamente ligada às análises históricas da prática científica. Entre os principais autores dessa concepção alternativa, destacamos: Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos e mesmo sem pertencer ao grupo, porém, com orientações muito parecidas, Larry Laudan. Particularmente Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, promoveu um desvio profundo na epistemologia contemporânea, tirando-a da posição logicista tradicional e colocando-a numa posição mais sociológica, altamente vinculada à história da ciência. O filósofo acreditava que uma teoria científica se desenvolve seguindo um número finito de passos que se repetem ciclicamente, conforme as teorias vão substituindo umas às outras.

Inicialmente, só haveria a “pesquisa científica inicial” ou “coleta inicial de fatos”. Nesta etapa trabalhariam apenas um pequeno conglomerado de cientistas, composto basicamente de estudantes, pesquisadores já graduados e outros profissionais interessados diretamente em desenvolver essa “pesquisa científica inicial” e/ou resolver quaisquer problemas ligados a ela. É importante ressaltar que nesse conglomerado de cientistas, existirão várias visões, provenientes de diferentes escolas científicas, trabalhando conjuntamente. Não há, neste momento, uma linha de pensamento única a ser seguida. O que há são indivíduos que, isoladamente, elaboram suas próprias hipóteses sobre a pesquisa científica, fazendo uso de suas próprias linguagens, conhecimentos e crenças. Assim, essa “pesquisa científica inicial” avança em inúmeras direções, mas a utilização de conceitos distintos, provenientes de escolas distintas, pode produzir um efeito de desmembramento da realidade em unidades, objetos, propriedades e relações de naturezas diversas, em virtude desta falta de unidade de pensamento. Por sua vez, cada descrição dessa realidade desmembrada faz menção a um mundo distinto, pois está dividido, construído e classificado segundo concepções muito diferentes. Grosso modo, cada cientista isoladamente realiza suas pesquisas dentro de um universo de noções muito particulares e pessoais, o que pode comprometer demasiadamente a eficácia desta “pesquisa científica inicial”. Portanto, é impossível não notarmos o caráter “anárquico” que se estabelece nesse primeiro passo, onde nos parece que todos, de algum modo, podem estar corretos quanto ao rumo que a pesquisa científica deva tomar.

Ainda sobre a eficácia da pesquisa científica, Kuhn defende a tese de que essa eficácia é maior para as ciências conhecidas como ciências plenamente desenvolvidas ou hard science ou naturais, se comparadas à eficácia das ciências humanas e/ou sociais. Essa tese fundamenta-se no fato de que, em determinado momento, nas ciências naturais, o conglomerado de cientistas da “coleta inicial de fatos” irá dar lugar a outra forma mais concisa e organizada de trabalhar para a realização dessa pesquisa científica; o mesmo já não ocorre com as ciências humanas e/ou sociais. Levando em conta sua própria experiência de físico, o autor concluiu que a qualidade, a capacidade e a inteligência dos cientistas dedicados às ciências naturais, não eram em nada diferente da qualidade, da capacidade e da inteligência dos cientistas dedicados às ciências humanas e/ou sociais. Sendo assim, o que, de fato, ocorria com as ciências humanas e/ou sociais era bem simples: essas não haviam chegado, por meio de seus cientistas, a um consenso de conceitos capaz de tirá-las dessa primeira etapa, ou seja, essas ciências permaneciam sempre num estado de “coleta inicial de fatos”.

Um cientista, devido a circunstâncias que podem variar de acordo com o contexto histórico, poderá exercer várias tarefas como: descobrir algo novo, escrever manuais e/ou fórmulas, desenhar instrumentos ou desenvolver uma teoria. Através do êxito dessas tarefas, este mesmo cientista poderá resolver os problemas não resolvidos pelos outros membros do conglomerado de cientistas ou pelas escolas científicas por eles representadas na “coleta inicial de fatos”. Na sequência, este êxito desencadearia de imediato a “etapa de conversão”, onde se forma a “comunidade científica” que se origina do conglomerado de cientistas, anteriormente dispersos, porém, agora concentrados em torno daquele cientista ou escola que obteve o êxito inicial. Essa conversão dos membros do conglomerado de cientistas em uma “comunidade científica” passaria mais por um insigh, semelhante a uma “conversão religiosa”, do que por um debate cujos argumentos lógicos seriam absorvidos em detrimento de outros. Estes cientistas abandonam suas posições antigas e simplesmente passam a seguir a “nova ordem”. A etapa de conversão poderá durar o tempo que for necessário para que todos os membros daquele conglomerado de cientistas estejam de acordo com a “nova ordem”, isto é, até que todos estejam concentrados em torno da mesma escola de pensamento.

Portanto, para Kuhn, uma “comunidade científica” é aquele grupo de pessoas que praticam conjuntamente uma profissão científica e que estão ligados por elementos comuns para levar a cabo a resolução de metas e objetivos de sua pesquisa científica. Os membros de uma “comunidade científica” partilham de uma mesma formação, baseada em manuais e conferências de uma tradição científica determinada. Isto permite que haja uma grande comunicação no grupo e uma adequação de juízos que, no entanto, não exclui as discrepâncias. Além disso, a “comunidade científica” pode se dedicar ao aspecto mais sutil da pesquisa científica porque não tem que justificar os princípios teóricos nem os conceitos utilizados em seu campo, já que todos os membros estão de acordo.

Ora, sendo de suma importância a formação de uma “comunidade científica” para o desenvolvimento de uma pesquisa científica e, sendo esta “comunidade científica” fruto de uma “conversão” do conglomerado de cientistas, cujos membros pertenceriam a diferentes escolas de pensamento, a principal característica da “ciência normal”, desenvolvida dentro do que Kuhn denominou de “paradigma”, torna-se o consenso dos cientistas em torno de uma escola de pensamento para o desenvolvimento de uma pesquisa científica. Para Kuhn, a “ciência normal” seria a “[...] atividade na qual a maioria dos cientistas emprega inevitavelmente quase todo seu tempo, é baseada no pressuposto que a comunidade científica sabe como é o mundo.” (2000, p.20). Um “paradigma” é um modelo ou exemplo a ser seguido por uma “comunidade científica” a fim de solucionar seus problemas e ele determina também o modo como tais problemas serão solucionados. Grosso modo, um “paradigma” comporta uma maneira de entender o mundo, explicá-lo e manipulá-lo. Sobre os “paradigmas”, o filósofo pondera: “Considero paradigma as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.” (2000, p.13).

Dessa forma, um “paradigma” oferece uma base de afirmações teóricas e conceituais àqueles que o seguem e uma certa concordância sobre os problemas urgentes a resolver, algumas técnicas de experimentação concretas e alguns pressupostos metafísicos que enquadram e dirigem a pesquisa. Ainda sobre os “paradigmas”, o filósofo nos diz que: “Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade científica compartilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em algumas pessoas que compartilham um paradigma” (2000, p.219). No entanto, chegaria o momento em que certos inconvenientes internos esboçados por uma experiência paradigmática começariam a gerar uma situação de tal natureza que acabaria por provocar um colapso na “comunidade científica” e no “paradigma” em questão. Esses inconvenientes internos “especiais” que levariam a este colapso teriam, sem dúvida, sua origem em fatores de ordem externa e/ou na “comunidade científica”, já que o “paradigma” garante que os inconvenientes internos “comuns”, isto é, os “quebra-cabeças”, sejam resolvidos a contento. Diante de tais inconvenientes internos “especiais”, os participantes da pesquisa científica, durante o período da “ciência normal”, perceberiam o surgimento de um processo de crise, uma certa desorientação, um desconforto, que se refletiria em um grande questionamento a respeito do “paradigma” vigente, de seus instrumentos e manuais. É importante, nesse momento, recordarmos que o que precede essa crise é somente a prática incessante da “ciência normal”, isto é, a solução de problemas ou “quebra-cabeças”. Quando esses “quebra-cabeças”, por motivos externos, tornam-se “anomalias”, começa o período de crise.

Uma boa definição para a etapa das “anomalias” seria dizermos que esta é a etapa onde se dá o surgimento de um ou mais problemas, de naturezas diversas, que não podem ser articulados junto com o “paradigma”. Em um primeiro momento, frente à “anomalia”, os cientistas tendem a não questionar o “paradigma”, ao contrário, tendem a ignorá-la. Estrategicamente, para defender o “paradigma”, a “comunidade científica” esconde as “anomalias”, utilizando-se, às vezes, de hipóteses ad hoc, na esperança de tratar-se somente de um engano que, com o tempo, iria se desfazer. É interessante percebermos que a detecção de uma “anomalia” não é uma tarefa tão fácil como às vezes pode nos parecer, ainda mais se há um “paradigma” anterior que sustenta algo contrário a essa “anomalia”. É por essa razão que os cientistas têm a tendência de transformar em uma simples perturbação o que poderia ser, na verdade, uma “revolução”, em termos científicos. Sobre a adesão de uma “comunidade científica” a outro “paradigma” devido à presença de “anomalias”, o filósofo afirma que: “A transferência de adesão de um paradigma a outro é uma experiência de conversão que não pode ser forçada.” (2000, p.191).

Essa etapa indica também que uma “anomalia”, em um primeiro momento, não tem reconhecimento junto à “comunidade científica”. Esta tende a rejeitar, de forma veemente, a “anomalia”, declarando-a como um “mal científico” surgido a partir de um uso indevido de procedimentos não-paradigmáticos. Assim, o próximo passo, a sexta etapa, pode ser descrita como a etapa onde as “anomalias” se tornam freqüentes e começam a produzir inquietações na “comunidade científica”, gerando uma crise. No entanto, nesse momento, a crise ainda não é grande o suficiente para que o “paradigma” vigente seja abandonado de vez. O “paradigma” só começa a sofrer abalos estruturais mais adiante, isto é, na “etapa da emergência”. É nessa etapa que o “paradigma”, devido ao excesso de “anomalias” que se tornaram “contra-exemplos” e a crise na “comunidade científica”, começa a se dividir em “sub-paradigmas”, pondo em evidência novamente questões epistemológicas, de princípios ou de fundamentos científicos. Logo, até que a crise se resolva e outro “paradigma” venha a substituir esse, a “comunidade científica” não abandona o “paradigma” vigente. Somente quando um cientista realiza uma “revolução” na maneira habitual de pensar e agir, quando mudam os conceitos e os princípios e a maneira de entender e avaliar uma experiência ou instrumento, que nasce um novo “paradigma”. O nascimento desse novo “paradigma” só se dá no final da dita “revolução”. Finalmente, quando todos os membros da “comunidade científica” se renderam ao novo “paradigma”, recomeça a prática da “ciência normal”, agora administrada pelo novo “paradigma”: a esse ciclo, Kuhn chamou de “revolução científica”. Vale ressaltar que uma “revolução científica” está associada somente a um “paradigma” e a uma “comunidade científica” e essa “comunidade científica” trabalha apenas um “paradigma” por vez. Sobre esse aspecto particular das “revoluções científicas”, Kuhn nos diz que: “[...] as revoluções científicas precisam parecer revolucionárias somente para aqueles cujos paradigmas sejam afetados por elas. Para observadores externos, podem parecer etapas normais de um processo de desenvolvimento [...]” (2000, p.26).

Uma outra questão importante e bastante controversa da epistemologia kuhniana é a questão do “progresso” da ciência. Vimos que o “paradigma” teria como tarefa principal oferecer uma referência adequada à “comunidade científica” e a “ciência normal”. A seu turno, sobre a “ciência normal” estariam apoiadas as pesquisas da “comunidade científica” dedicadas à resolução exaustiva e meticulosa de todos os problemas mais urgentes, sem que esta comunidade tivesse que se preocupar com a revisão de seus principais fundamentos. Essa plena dedicação da “comunidade científica” faria com que a resolução de problemas se fizesse de uma maneira eficaz e, esta eficácia da “comunidade científica” em suas pesquisas seria o “progresso na ciência normal”. Para este “progresso”, contribuiriam dois fatores circunstanciais: 1) o isolamento do grupo, dentro da sociedade, que ditaria o dinamismo nas pesquisas; e 2)a pesquisa especializada baseada nos manuais e conferências, que faria com que o cientista assumisse plenamente o “paradigma” e estivesse preparado para resolução dos problemas e crises de sua tradição, mesmo que faltasse a seu trabalho, originalidade e criatividade.

A segunda modalidade de “progresso” poderia ser descrita como o “progresso da ciência extraordinária”, isto é, o “progresso” entre “paradigmas”. Logo de início, devemos perceber que essa mudança de “paradigma” associada ao “progresso” científico, não deve ser entendida como uma aproximação cada vez mais precisa da “realidade”, mas sim como um aperfeiçoamento de idéias que conservam alguns de seus elementos de base. É importante deixar claro que Kuhn não acredita que a realidade desempenhe um papel significativo para a ciência, no entanto, o autor não nega a existência de uma realidade: ele apenas considera que o cientista somente discute os fatos tais como esses se apresentam em um “paradigma”, isto é, tal como um “paradigma” os constitui. Conseqüentemente, não há para a ciência uma realidade no sentido absoluto e independente do “paradigma”, pois a realidade kuhniana seria constituída de fatos interpretáveis através do “paradigma” vigente. Assim, quando ocorresse uma “revolução científica”, a realidade deixaria de ser o que ela é para assumir a forma determinada pelo novo “paradigma”.

Portanto, o autor não aceita a tese de que as teorias científicas, na medida em que os “paradigmas” vão surgindo e/ou sendo substituídos por outros, estejam fornecendo mais precisão á estrutura do mundo real. O desenvolvimento científico é uma seqüência histórica na qual, através das “revoluções científicas”, os “paradigmas” são substituídos por outros e assim sucessivamente. Para Kuhn, o “progresso” científico só poderia ser medido pela comparação entre o êxito da “ciência normal” do “paradigma” antigo e o êxito da “ciência normal” do “paradigma” novo, por isso não se poderia falar de “progresso” científico em termos de uma realidade absoluta, ou seja, como um avanço em alguma direção supostamente privilegiada do mundo. Os “paradigmas” se substituem uns aos outros ao longo da história e resolvem mais e diferentes problemas, porém isso nada tem a ver com uma realidade absoluta. A realidade é o próprio “paradigma” e o “progresso” é a eficiência cada vez maior dentro deste.



[1] Este breve artigo tem como objetivo principal introduzir o tema do curso de “Questões de Antropologia e Filosofia da Ciência” (CTD165) que ministrarei no próximo semestre.

[2] Contudo, o significado dessas teses varia para o empirismo lógico e o racionalismo crítico, a saber: a) o realismo, para o empirismo lógico, seria uma tentativa de descobrir a verdade através da observação e da indução e para o racionalismo crítico, a observação seria seu princípio de falsificação; b) sobre a demarcação, o empirismo lógico gostaria que esta tese fosse forte o suficiente para negar tudo aquilo que não é ciência e o racionalismo crítico veria as teorias não-científicas como fonte possível de inspiração para teorias que seriam falsificadas ou não; c) a ciência e o progresso acumulativos do empirismo lógico teriam um sentido de soma através da observação e para o racionalismo crítico este progresso se daria pelo descarte de teorias que foram falsificadas; d) a distinção entre observação e teoria no empirismo lógico se daria no sentido observação/teoria e no racionalismo crítico o sentido seria o oposto; e) a precisão de conceitos científicos e termos empregados na ciência seria típico do empirismo lógico e f) o contexto de descoberta no empirismo lógico seria a observação e no racionalismo crítico seria a invenção em geral, e o contexto de verificação no primeiro seria a análise lógico-lingüística e no segundo seria a falsificação.

Quando a Filosofia influencia a Física: Descartes e Newton

postado em 5 de jun de 2011 18:39 por Jornal BC&T

Resumo: Este artigo discute, brevemente, dois aspectos da Filosofia natural cartesiana que se destacam como focos de inspiração ou oposição à Filosofia natural newtoniana, a saber: o movimento e o atomismo antigo grego.

 

O filósofo e historiador da ciência Howard Stein, em seu artigo “A metafísica de Newton”, afirma que a verdadeira inspiração de Newton para a criação de sua revolucionária Física foi sua intensa oposição à Filosofia de Descartes. As diferenças entre Newton e os cartesianos (seguidores das ideias de Descartes) têm início com a própria definição de Filosofia natural de Descartes. Para Descartes e os cartesianos as regras da natureza têm sua origem na perfeição divina. A existência de Deus e Seus feitos no ato da criação são suficientes para o estabelecimento das características naturais de nosso ambiente. Porém, Newton discorda desta posição. Para ele, nosso conhecimento de Deus provém somente de Sua imensa sabedoria, Sua excelente idéia das coisas e das causas finais. Logo, a existência de Deus e seus feitos no ato da criação por si só não seriam suficientes para estabelecer as características naturais de nosso ambiente. Para Newton, faltava algo...

Mesmo assim, a Filosofia natural cartesiana e seus principais fundamentos influenciaram o pensamento de outros filósofos e cientistas desde o século XVII até o final do século XVIII, como por exemplo, Huygens, Leibniz e até mesmo Gauss. Segundo Alexandre Koyré, em seu artigo “As origens da ciência moderna”, através do desenvolvimento de uma poderosa mecânica e de uma visão de mundo baseada em formas geométricas, Descartes juntamente com Galileu e Newton teriam sido os principais responsáveis por uma mudança radical na forma de ver, pensar e viver a natureza.

A Filosofia natural de Descartes estava fundamentada no conceito de substância. Para Descartes a substância é a primeira categoria de “ser” existente no mundo. No cartesianismo há dois tipos distintos de substâncias, a saber: a substância pensante e a substância extensa ou extensão (como é mais conhecida). No que tange a Física, a substância pensante é os atributos que a mente de um observador coloca nas coisas, por exemplo: cheiro, sabor, cor, entre outras. A extensão (largura, altura e profundidade de um corpo) seria o próprio corpo. Observo que tudo é extenso no mundo de Descartes: não há lugar para o vazio. Por isso, creio que cabe aqui uma pergunta simples: Se tudo é extenso, como se pode distinguir um corpo de outro, uma coisa da outra? De acordo com Descartes, o que distingue um corpo de outro é seu movimento. Daí, para os cartesianos, a Filosofia natural consiste no estudo e exposição do movimento dos corpos e nas diversas variações deste movimento, interno ao próprio corpo. Já para Newton, o movimento tem um caráter dinâmico, ligado ao conceito de força, externo ao corpo.

Diante desta definição, cabe outra questão: Como explicar o que Descartes chama de movimento? Inicialmente, a definição cartesiana de movimento limitava-se àquilo que fazia os corpos mudarem de um lugar para outro. Porém, esta definição se alteraria com o tempo, transformando-se em uma complexa engrenagem relativista, impossível de ser encaixada na Física newtoniana. Ao longo de seus estudos, Descartes transformou sua definição de movimento de uma simples mudança de lugar para uma transferência do corpo, ou de uma parte deste, de uma vizinhança contígua para outra, onde essas vizinhanças contíguas seriam outros corpos em repouso em relação ao corpo que se movia (!?). É importante ressaltar que para Newton, ao contrário de Descartes, as definições de movimento e outros conceitos eram muito claros. Para Newton:

 

Def: I. Um lugar é uma parte do espaço que uma coisa preenche adequadamente.

Def: II. Um corpo é aquilo que preenche um lugar.

Def: III. Repouso é permanecer no mesmo lugar.

Def: IV. Movimento é mudar de lugar.

(NEWTON, 1978, p.122).

 

Diferentemente de Newton, os princípios e regras que governam o movimento cartesiano não poderiam nem deveriam ser verificáveis por seus próprios significados ou por qualquer observação empírica. Estes princípios e regras provinham diretamente da imutabilidade de Deus, da constância de Suas ações ao preservar o mundo a cada momento. Isso implica na conservação total da quantidade de movimento do mundo em si mesma, isto é, na conservação de todos os corpos em movimento, simultaneamente.

Outro ponto de inspiração para a Física de Newton, baseado em sua discordância com Descartes, era a questão do atomismo grego antigo (doutrina dos pré-socráticos Demócrito, Epicuro e Leucipo que apregoavam que a matéria era finitamente divisível e sua parte última era o átomo). Descartes não aceitava a indivisibilidade atômica e o espaço vazio. Contrariamente, para Newton a matéria tinha uma parte última e havia espaços vazios entre as partes. De acordo com Newton, o mundo não era, nem poderia ser plenum como queria Descartes. A esta parte última, Newton chamou de corpúsculo, um corpo minúsculo, rígido e indivisível.

Vale ressaltar também que Newton rejeita o conceito de extensão cartesiano, mas não rejeita a extensão dos corpos em si. Para ele a extensão se confundia com o próprio espaço ocupado pelos corpos, pois ela não era somente uma característica dos corpos. Grosso modo, a extensão não requereria um corpo que fosse extenso, visto que ela teria uma existência própria.

Concluindo, Newton e Descartes tinham em comum a Filosofia mecanicista e é através dela que a Filosofia natural de Newton tem início: ela é o ponto de partida para a construção da Física newtoniana mesmo que posteriormente ele viesse a trair radicalmente esta Filosofia mecanicista ao introduzir o conceito de ação à distância (um corpo agindo sobre outro sem que houvesse contato direto entre eles) para explicar a dinâmica dos céus e da Terra.

 

Referências:

KOYRÈ, A. As Origens da Ciência Moderna: Uma Nova Interpretação. 1956. In: Estudos de História do Pensamento Científico. 2ª.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991, p.56-79.

STEIN, H. Newton’s Metaphysics. In: COHEN, I. B.; SMITH, G. The Cambridge Companion to Newton. Cambridge: Cambridge University Press. 2002, p. 256-307.

Espaço Cedido[i] [ii]

postado em 13 de abr de 2011 12:43 por André Luiz Covre   [ atualizado em 14 de abr de 2011 20:33 por André Silva ]

“Eis-me” aqui, mais uma vez, falando o óbvio: Platão sabia das coisas! Dessa vez o assunto é o conhecimento, mas só o conhecimento verdadeiro. E é justamente sobre a aquisição do conhecimento verdadeiro que Platão, em seu diálogo Teeteto, descreveu uma das mais belas ideias da Filosofia. Conhecida como “a metáfora da parteira”, Platão na voz de Sócrates compara o trabalho do filósofo com o da parteira. Como? Ele afirma que a parteira quando ajuda a trazer um ser à vida causa dor, pois dar a luz dói. Do mesmo modo, o filósofo também ajuda àquele que o ouve a pensar, a conhecer a si mesmo e as coisas. Bem, isto também dói. E muito...

Longe de querer me comparar a Platão (afinal, quem sou eu), tento modestamente, à imagem de meu mestre, formar engenheiros melhores. Falo dos futuros engenheiros que, ao olharem para trás perceberão que conseguiram estudar tudo aquilo que precisavam para serem o que são. Estou falando de estudar, entre números e fórmulas, o método e, como ele nos ajuda a chegar ao conhecimento. Não falo de regras ou normas, pois estas não precisam ser entendidas em sua natureza. Falo de compreender o método em suas raízes e, muito mais que isto, dominá-lo ao ponto de poder até escrever sobre ele! Falo do método científico.

Por essas razões, é com alegria que cedo este espaço para alguns desses futuros engenheiros. Vou dividi-los em dois grupos: “Os ousados” e “Os precisos”, pois como Sócrates bem o disse, a verdadeira sofia está muito além de um simples discurso...

 

“Os ousados”: André Felipe Ferreira Silva; Gabriel Rodolpho Lima de Freitas; Juliana Nascimento Rocha; Taís Aparecida Reis

 

O Conhecimento Científico

O conhecimento é dito como a criação intelectual das representações significativas da realidade. O indivíduo procura entender o meio partindo dos pressupostos de interação entre si e seus objetivos. É uma forma de explicar os fenômenos das relações, a saber: sujeito/objeto, homem/razão, homem/desejo ou homem/realidade. Deste modo, o conhecimento, dependendo da forma pela qual se chega a essa representação significativa, pode ser classificado em diversos tipos, como: mítico, artístico, filosófico, religioso, ordinário (senso comum ou empírico) e científico. As duas últimas formas são as que estão mais presentes na vida diária do homem.

O Conhecimento do senso comum surge da relação do ser com o mundo, através da necessidade de resolver problemas imediatos, elaborados de forma espontânea e instintiva. É um conhecimento que valoriza a percepção sensorial, fundamentado na tradição e limitado às informações pertinentes ao seu uso e é incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações sustentadas em crenças individuais. Não há uma determinação na linguagem utilizada, contém termos e conceitos vagos, não há um conhecimento sobre os limites de validade das suas crenças. Sua eficiência e êxito são elevados para aquelas situações que se repetem com um padrão regular. Assim, fica-se, porém, sem saber explicar as causas do insucesso ao se modificarem algumas de suas circunstâncias ou condições.

Já o conhecimento científico surge da necessidade de o homem não assumir uma posição meramente passiva, sem poder de ação ou controle dos fenômenos. Otimizando o uso da racionalidade, propõe uma forma sistemática, metódica e crítica de desvendar, compreender, explicar e dominar o mundo. O conhecimento científico é um produto resultante da investigação científica, alcançando um conhecimento confiável. Na pretensão de construir uma resposta segura para responder às duvidas existentes, o conhecimento científico propõe-se atingir dois ideais: o ideal da racionalidade, que está em atingir uma sistematização coerente de conhecimento e o ideal da objetividade que, por sua vez, pretende que as teorias científicas sejam construções conceituais que representem com fidelidade o mundo real. Possui uma linguagem específica e um alto poder de crítica. Um conhecimento é considerado científico quando segue o método cientifico. O método científico pode ser definido como uma forma crítica de produzir um conhecimento científico que consiste na proposição de hipóteses bem fundamentadas e estruturadas em sua coerência teórica (verdade sintática) e na possibilidade de serem submetidas a um teste crítico severo (verdade semântica) avaliado pela comunidade científica de forma intersubjetiva (verdade pragmática).

Embora seja mais seguro que o conhecimento do senso comum o conhecimento científico também é falível. Portanto, o que distingue o conhecimento científico dos outros não é o assunto, o tema ou problema. O que o distingue é a forma especial que adota para investigar os problemas, a postura científica que consiste em não dogmatizar os resultados das pesquisas, mas tratá-los como eternas hipóteses que necessitam de constante investigação e revisão crítica.

 

“Os precisos”: Alanderson Guido Oliveira; César Augusto Ribeiro; Marcelo Oliveira Godinho, Mateus Felipe Louredo Araújo

 

Ciência: uma vertente em constante evolução

Grandes feitos e teorias foram elaboradas durante o decorrer da história, mas em especial dois acontecimentos chamaram a atenção da humanidade e colocaram em pauta a dualidade dos caminhos que a ciência possui. O primeiro momento foi durante um eclipse solar em que cientistas comprovaram com êxito a teoria de Einstein de que o espaço não era reto, mas sim curvado. No entanto a face “perversa” do saber científico mostrou-se em 1945, quando Hiroxima e Nagasáqui foram destruídas por bombas atômicas. Dessa forma, o homem mostrou que podia usar o conhecimento científico para dominar e controlar a natureza e até mesmo outros homens.   Alguns leigos consideram a ciência milagreira. Essa visão errônea é difundida constantemente pelos meios de comunicação em massa.

A maioria das pesquisas científicas prioriza o seu caráter prático, que consiste em conhecer os fatos, os acontecimentos e fenômenos para então estabelecer previsões e obter o controle da situação. O homem utiliza a tecnologia para o seu conforto. Numa linha do tempo de invenções, seria possível enumerar várias descobertas e feitas em distintos campos práticos de atuação: medicina, agricultura, informática, geração de energia elétrica e telefonia, por exemplo.

Atualmente, o conhecimento científico é usado de forma dominadora. Quem tem conhecimento possui poder, força e muitas vezes, riqueza. No entanto, essa visão simplista baseada apenas no caráter prático distorce gravemente os reais objetivos da ciência. O homem faz a ciência para responder as suas dúvidas e solucionar os seus problemas, dessa forma ele aprende mais sobre si e o mundo que o cerca. Entretanto, ele poderia fazer isso usando outras formas de conhecer. A questão é: qual critério usar para distinguir a ciência de outras formas de conhecer? Este critério, o método cientifico, segue passos que devem ser descritos. Para interpretar o mundo e a ciência contemporânea, surge então um desses métodos, o método científico indutivo.

 A indução, como método científico, é entendida desde Aristóteles, como o argumento que passa do particular para o geral. Não se pode conceber a indução como forma de argumentação válida e correta para se estabelecer uma verdadeira conclusão, uma vez que este método parte de uma típica postura empirista, a qual não admite lugar para a subjetividade. Os critérios subjetivos são fundamentais para explicar o problema que é objeto da investigação cientifica, já que há muitas formas de observá-los ou classificá-los. Sob o ponto de vista epistemológico, portanto, a indução é insustentável.

O método hipotético-dedutivo surge para identificar problemas contemporâneos, questionando o método anterior (indutivo) que identificava apenas os fatos e as suas generalizações. Popper, um dos pensadores dedutivistas, sugeriu que toda discussão científica partisse de um problema, originando uma teoria-tentativa, que seria provisória e, depois fosse confrontada, a fim de renovar-se sempre e eliminar cada vez mais erros e imprecisões. Qualquer que fosse a experiência, deveria ser investigada a fundo para encontrar erros e corrigi-los. Uma teoria só é válida se é feita de forma a estudar o interior de cada assunto. A visão superficial dos fatos por si só não traz explicações relevantes. Portanto, uma teoria nunca poderá ser considerada universalmente válida. Toda teoria está sujeita a erros e invalidações. Como saber então sobre a validade ou não de uma teoria? Isso é impossível. Não existe um método específico que nos dê essa resposta. Cabe aos pesquisadores seguir investigando e trabalhando sobre cada questão, a fim de superar obstáculos e corroborar cada vez mais com as teorias.

A concepção atual de ciência está muito distante das visões antigas e deterministas, que se baseavam na tentativa de buscar respostas concretas e incontestáveis. Ela nunca se fecha com uma nova descoberta ou uma nova teoria e está sempre sujeita a revisão. A ciência é o processo constante de investigação, sempre consciente de possível falibilidade. Ela evoluiu historicamente, e tornou-se não só a busca constante por novas explicações e teorias que expliquem velhos e novos problemas. Tornou-se também a busca por novos processos e métodos de investigação, que também se baseiam não em verdades irrefutáveis, mas sim em atitude crítica.


[i] Dedico esta coluna àqueles que consideram o ensino da metodologia dispensável.

[ii] Os trabalhos apresentados usaram a seguinte referência: KÖCHE, J. C. Fundamentos de Metodologia Científica: teoria da ciência e prática da pesquisa. 17.ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

Paul Feyerabend: o vingador de Ícaro[1]

postado em 24 de mar de 2011 09:00 por André Luiz Covre   [ atualizado em 25 de mar de 2011 15:00 por André Silva ]

Enquanto o poeta afirma que “O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”[2], eu me pergunto: por quê? Ícaro ganhou os céus com um par de asas coladas a cera e Galileu o ganhou desvendando seus mais obscuros mistérios. O deus Hélio puniu Ícaro promovendo sua queda e consagrou Galileu ao consentir, desavergonhadamente, que ele visse e até desenhasse algumas de suas imperfeições. As asas de Ícaro foram construídas a imagem dos pássaros e a luneta de Galileu deu origem ao método matemático. Hélio enfim se calou e descansou.

Com o estabelecimento do método matemático de Galileu, a ciência progrediu e a tecnologia passou a fazer parte da vida dos homens. Porém, segundo alguns epistemólogos preocupados com o avanço desenfreado da ciência, o método de Galileu, em seu estado puro já não é suficiente para fazer a “boa ciência”. Em linhas gerais, fazer uma ciência que resulte em tecnologia exige a invenção paulatina de novos métodos. Porém, que métodos são estes? Quais são as suas características?

Segundo o filósofo Paul Feyerabend, adotar o pluralismo metodológico seria benéfico para a prática científica, já que o principal objetivo do método científico único, em seu estado da arte, poderia ser descrito como somente uma codificação ou “engessamento” de regras metodológicas formadoras do núcleo da racionalidade científica. O principal argumento de Feyerabend em defesa deste pluralismo metodológico é baseado na idéia de que o conhecimento humano não foi totalmente explorado, e, portanto, ainda há muitas coisas por descobrir, conhecer e construir. Por conseguinte, não há razões válidas para que os pesquisadores e cientistas se atenham a uma única regra metodológica, ou até mesmo a uma única teoria científica para a plena realização de seus trabalhos. Feyerabend em seu livro Contra o Método recorre a própria história da ciência, mais especificamente a prática de Galileu, para defender e confirmar que esta falta de “engessamento” metodológico seria um modus operantis cientificamente producente. Segundo a interpretação histórica de Feyerabend, Galileu usou técnicas de persuasão, retórica associada a teses consideradas científicas para convencer os aristotélicos detentores do poder de suas teorias.

Nesse cenário onde co-habitavam o geocentrismo escolástico e o emergente heliocentrismo copernicano, o pluralismo metodológico se apresenta como uma alternativa viável e até mesmo lógica para atender aos anseios da ciência de conhecer o mundo e sua realidade objetiva. Estar aberto a novas metodologias deveria ser uma prática normal dos homens de ciência, pois, em última instância, para se aproximar desta realidade objetiva, os cientistas não deveriam descartar, sem julgamento prévio, algo que estivesse em discordância com um “senso comum científico”. Isso seria o que a ciência, segundo sua própria história, teria feito; e esta é a posição que de fato está por trás do famoso e por vezes mal interpretado lema feyerabendiano “tudo vale”. Nas palavras de Feyerabend: “O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.”(FEYERABEND, 1993, p. 14) Isto não significa dizer que haja uma obrigatoriedade de violação de regras metodológicas a todo instante para que a ciência percorra seu caminho natural. O que o filósofo Paul Feyerabend defende é a liberdade do cientista em optar por utilizar em seus trabalhos uma ou várias metodologias, consideradas científicas ou não.

A seu turno, Feyerabend também não acreditava que o próprio progresso da ciência estivesse “amarrado” a utilização por parte dos cientistas, a um só método de pesquisa ou uma causa final. Para o filósofo, o importante em relação ao progresso científico seria discutir, debater e confrontar teorias em lugar de levar em conta apenas os fatos empíricos ou chegar a um resultado final. Assim, Feyerabend acredita que sem deturparmos, no bom sentido, um conceito ou teoria fica muito difícil criar um novo conceito ou uma nova teoria, isto é, progredir. Para Feyerabend, a melhor maneira de se deturpar um conceito ou uma teoria seria, sem dúvida, através da violação de regras metodológicas, ou seja, agir “contra-indutivamente”.

No Contra o Método, Feyerabend demonstra acreditar que toda observação estaria sempre impregnada de uma ou várias teorias, pois “a ciência não conhece fatos nus” (FEYERABEND, 1993, p.12). Uma nova teoria não estaria indo somente contra pensamentos já bem estabelecidos e consagrados, mas também contra observações já fundamentadas. Qualquer teoria que fosse contra as teorias já consagradas também iria contra os fatos abarcados por elas. Dessa forma, para Feyerabend, uma teoria que se comporte contra-indutivamente não deveria ser descartada simplesmente por estar indo contra fatos já estabelecidos. Inversamente, o filósofo defende a seguinte hipótese: se uma teoria caminha contra fatos já estabelecidos significa que ela questiona a própria teoria vigente que se encontra atrás destes fatos já estabelecidos. Consequentemente, esta nova teoria emergente seria a criadora de novos fatos que podem, finalmente, por a prova a teoria vigente. Neste contexto podemos observar que, para Feyerabend, até mesmo os fatos não possuiriam o poder da verdade absoluta. Logo, a decisão sobre se uma teoria deve ou não prevalecer sobre uma outra não deveria estar baseada somente em fatos. Isto ocorre porque os fatos estariam sempre contaminados e impregnados por teorias de diversas ordens, o que significa dizer que talvez eles não fossem tão imparciais com relação à teoria que ele gerou.

Finalizando, se somente os fatos refutassem as teorias, não existiria nenhuma teoria, e, por sua vez, se uma teoria estivesse em sincronia com todos os fatos, ela nunca poderia ser refutada, a não ser com o auxílio de outras teorias, o que nos parece, tout court, tratar-se também de uma ação “contra-indutiva”. Grosso modo, as maiores crenças do polêmico filósofo Paul Feyerabend com relação à ciência e o seu progresso seriam: discutir, debater e confrontar teorias de todas as ordens, em lugar de levar em conta apenas fatos empíricos; o domínio de uma teoria sobre todas as outras deveria ser evitado a todo custo e, caso este domínio ocorresse, seria uma ação contrária ao progresso científico. Destarte, concluo descompromissadamente que na ordem suprema do cosmos, enquanto Galileu foi o escolhido do deus Hélio, Feyerabend veio ao mundo para vingar Ícaro. Afinal, que mal há em imitarmos os pássaros?[i]


_____________________________________________________________________________________________________________________________

[1] Dedico esta coluna a um grande mineiro, meu orientador de mestrado Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos, fã incondicional de Paul Feyerabend.

[2] “Tendo a Lua” de Herbert Vianna.

[i] FEYERABEND, Paul K. Against Method. 3ª. ed. Nova Iorque: Verso, 1993.

1-4 of 4