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E por falar nisso...

Esta coluna pretende ser um espaço para falar abertamente, sempre a partir de uma mirada crítica, estética, poética e, quizá, colérica, sobre o mundo, a vida humana e sobre aquele turbilhão de pequenas coisas que alteram – pra pior ou melhor – nossas trajetórias existenciais.

Como amplo é o espectro de temas que aqui poderão surgir, variados também serão seus autores.

“E por falar nisso” quer ser parada para reflexão, pausa para um olhar mais atento no corre-corre da vida cotidiana. Oportunidade pra pensar um pouco mais sobre a avalanche de sensações, desejos, frustações e expectativas que vivenciamos e experenciamos diariamente.



Juliana Leal

juliana.leal@ufvjm.edu.br

Situação: Reprovado

postado em 3 de out de 2011 14:26 por André Luiz Covre

Pedro Borges (Aluno do 4° período do BC&T/UFVJM)

            Costumava escrever mais, pois é um ótimo hobbie e liberta a mente dos grilhões da perspectiva unilateral do pensamento (bonito isso né?! mas falemos disso em outro texto). O que me motivou dessa vez, o que me deu a ideia de guinar minha mente rumo a uma atividade produtiva foi ele... Sim! Ele: o velho conhecido de todos nós (professores e alunos da UFVJM): o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica.

A dinâmica da vida universitária é deveras interessante, principalmente para quem a vivencia por semestres. Cada período, em geral, é bem diferente do outro, como se fossem micro-anos que passam com a velocidade de um ano inteiro e que, ao final do período, te levam à morte. Isso mesmo, você morre, seja academicamente, seja socialmente. Você morre! Morre porque, se você quiser recomeçar tudo isso de um jeito completamente diferente, você pode. Vivemos em uma cidade na qual quase 90% das pessoas que conhecemos não são daqui, e vão para suas casas, assim como nós, no fim do semestre. Portanto é perfeitamente possível construir novos recomeços em outra cidade, em outra faculdade, com outras pessoas. Enfim, a vida universitária te permite morrer e renascer inúmeras vezes.

            “Esse período foi tenso”, é o que se escuta, toda hora, pelos corredores do pavilhão e afins. Para mim, particularmente, foi muito tenso.

Coisa engraçada aconteceu comigo dias atrás. Uma situação que seria cômica se não fosse trágica. Ao voltar de uma noite inteira de estudo (e você pensando que eu ia dizer farra, hein?), me encontrei, na rua, com um amigo, na verdade, dois, três... Meu Deus! Todos de mochilas nas costas, quase como em uma marcha fúnebre pelas ruas de pedra. Cadernos em mãos, caras cansadas e sangue repleto de café. Ao ver essa cena meus lábios esboçaram um sorriso, mas recuei quando percebi que também estava no meio do desfile dos desesperados. Acabei sorrindo de qualquer forma.

Mas é de praxe o desânimo, e ele vem, com certeza. Até o miojo com creme de leite perde o sabor (mãe, saudade! S2), e até as baladas não têm a mesma graça. Seja por qualquer motivo, mas principalmente pelo esforço aplicado em vão, porque quando você vai verificar suas notas, e clica naquele pequeno sinal de “+” o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica imprime para você:

“Situação: Reprovado”

Clicamos indiscriminadamente no sinalzinho de “mais” (eu o enxergo mais como uma cruzinha) para abrir as notas das matérias que fizemos, sem saber (ou sabendo) que estamos na verdade cavando o nosso próprio túmulo (coincidência ou não “cruz” também simboliza a morte, ao menos nas lápides dos túmulos nos cemitérios). E quando o resultado não é satisfatório vem a “lezera” (como diria um amigo meu).

Passei por isso este período (primeira vez) e de fato não desejo pra ninguém essa sensação. Mas quando estava para sair do Sistema Integrado de Gestão Acadêmica, eis que o próprio vem se comunicar comigo, por meio de uma mensagem clara e até chamativa, feita de letras em cores fortes e em caixa alta:

SIGA

            SIGA porque não há mais nada o que fazer, SIGA porque seu desempenho foi excepcional, SIGA porque tudo pode melhorar no período que vem. Não importa o problema desse período, SIGA porque a pior coisa que pode ser feita é estagnar, porque parando você é afogado por seus problemas e, acredite, eles (os problemas) se reproduzem de maneira impressionante. Como bactérias em Agar (Como diria o Geraldo Vandré: “pra não dizer que não falei das flores biológicas”)

E ele permanecerá lá, sendo xingado ou abençoado, ouvido ou ignorado. Mostrando a verdade nua e crua, doa a quem doer, como um oráculo quebrado, mas indiscutivelmente sábio. Um oráculo de uma só palavra. Curto, desferindo-a incondicionalmente:

SIGA

Ainda me sinto em alto mar...

postado em 5 de jun de 2011 15:06 por Jornal BC&T


Não sei se acontece só comigo, mas, muitas vezes, me sinto em meio a um mar; em meio a uma tempestade de informações que, ao fazerem sentido, vão levando um pouco de mim.

As informações me bombardeiam como as ondas e vão me jogando de um lado para o outro. Às vezes, me afundam, mas, depois, me trazem de volta à superfície. 

Quando penso que estou começando a olhar o mundo com outros olhos, que estou prestes a chegar à margem, já imaginando os corais, a areia branca dos meus sonhos ou vendo a liberdade que insisto em buscar, percebo que ainda estou presa. Talvez presa a mim mesma ou às palavras que circulam em meu dicionário e que invadem minha cabeça ou presa por laços que foram construídos antes mesmo que eu nascesse, como o batismo, por exemplo. Ou como as festas religiosas, os graus de parentesco, como os signos de linguagem e até mesmo os feriados santos, laços esses chamados de tradição. Laços que não são propriamente um problema, mas que não sei ao certo se posso fugir deles.

E assim os dias vão passando, iguais, desiguais às vezes, mas que sempre passam. E me alegro em saber que ainda que as ondas me sequestrem, elas sempre me trazem de volta, mais feliz, mais triste... O certo é que não posso negar que tais ondas são o que me fazem movimentar, mesmo quando se acalmam, pois, é aí que reflito. E continuo, assim como Dom Quixote, matando meus gigantes, mesmo que pareçam moinhos de vento, pois, trabalhar 8 horas por dia e estudar não é fácil! Requer esforço, suor, e muita paciência para lidar com pessoas que não sabem ser “pacientes”.

Me alieno ao destino e busco um lugar em meu coração que me traga o que o mundo aqui fora não traz. Sou nômade e me encontro em processo de transformação. Ainda não conheço tudo em mim, por isso, às vezes, me liberto, outras me aprisiono e, em cerca de minutos, me esqueço de tudo.

Neste exato momento me sinto em alto mar, mas, agora ouço ruídos de motores. Poderia até continuar escrevendo, mas o ônibus se aproxima, e pra variar um pouquinho, LOTADO.


Adriana Reis – aluna do 5º período do BHu

Archimboldo e eu

postado em 11 de abr de 2011 18:02 por André Luiz Covre   [ atualizado em 12 de abr de 2011 17:27 por André Silva ]

Quase não acreditei, no ano passado, na fala de uma de minhas médicas ao dizer que um ano é muito pouco tempo para uma pessoa se adaptar, aceitar, contornar mudanças em sua vida... Mudanças como as de cidade, de estado civil, de emprego, de endereço, de círculo social, de...

Vir pra Diamantina, no meu caso, significou todas elas e mais outras tantas que nem compensa mencionar. Mas o mais difícil pra mim, nesses últimos 15 meses que aqui moro, tem sido me adaptar à inexistência de hortaliças e frutas, quando as quero comer e à falta de carne boa pra fazer, nesses dias de frio, por exemplo, a calórica e revigorante canjiquinha com costelinha de porco e couve rasgada que aprendi com minha mãe.

Mas hoje a surpresa: Yamaguchi! Não gente, não é nome de concessionária de motos não, nem de um novo restaurante japonês na cidade. É precisamente o lugar onde encontrei couve, brócolis, caqui, repolho roxo (pasmem!), alface que presta, laranja, banana, abacaxi, cará, quiabo, alho poró (desmaiem!)... Tudo junto num mesmo lugar. E melhor: produtos de qualidade e um atendimento pra lá de personalizado.

Mais interessante do que ter descoberto esse paraíso orgânico foi o como cheguei até lá. Isso é que chamo de rede social corporativista e autossustentável. Talvez mais eficiente que as que existem por aí na net. Rss....

Tudo começou no Barzé. Entre um caldinho de dobradinha (DE-LI-CI-O-SO) com feijão branco (outro maravilhoso revival da minha educação alimentar que tive que abandonar a força quando vim pra cá) e uma prosa gostosa com o dono do emblemático bar, o segredo revelado: a carne servida ali vem de um único açougue: o do Marcinho.

Marcinho, do Açougue Bom Jesus, perto do Marques Center, não economizou préstimos pela cliente indicada: ganhei desconto, simpatia e atendimento pra lá de perfeito dos açougueiros, prazo pra pagar e o melhor: direito a levar EXATAMENTE a qualidade de carne que eu quisesse.

Me belisquem, me belisquem!

Mas hoje acordei com vontade de comer carne cozida, couve, angu, arroz e feijão. Simples assim, eu sei. Mas e a danada da couve? Onde achá-la?

_ Pô Marcinho, PELAMORDEDEUS, existe nessa cidade um lugar que eu possa comprar verduras, frutas, legumes....?

_ ....

_ ....

_ Yamaguchi.

Confesso que só saí do açougue direto pro tal Yamaguchi porque tinha sido o Marcinho, referência dada pelo Barzé, que... Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!

Já sei que a essas alturas vocês devem estar achando que estou aproveitando o espaço do Jornal do BC&T pra fazer propaganda pros comerciantes da cidade. Que estou ganhando um cachê extra e coisa e tal. Ô gente, nada disso. Nem sei se eles vão gostar de terem sido expostos desse jeito por mim.... Vai saber!

Não se trata de propaganda, mas de kit de primeiros socorros pra conseguir viver em Diamantina. E sei que a legião dos que vêm das lonjuras de Minas ou dos confins do país não cessa de crescer por essas bandas por conta da universidade.

E pros que aguentaram ler esta crônica bravamente até aqui, a dica do ano: sabe quando a gente precisa de grana depois da 22 horas e sabe (embora muitas vezes se esqueça) que os caixas eletrônicos não nos darão o nosso rico dinheirinho? Não, gente! Não é o caixa 24 horas do Banco do Brasil que tem lá naquela farmácia do Largo não! Trata-se do Comercial Itanguá, no bairro Rio Grande, people.

É que, às vezes, ou muitas vezes, a gente chega empolgado achando que resolveu o problema no tal caixa do Largo e dá de cara com a mensagem: “Saque indisponível no momento”. O que fazer?

Ah! O segredinho do Comercial Itanguá? Não vou contar não.... Tratem de ir lá, uai! Deu trabalho demais pra descobrir.

Que ilha que nada!

postado em 22 de mar de 2011 08:36 por André Luiz Covre   [ 29 de mar de 2011 06:53 atualizado‎(s)‎ ]

Não. Não se trata de viver como um náufrago que interage com cocos e peixes. Que, no máximo, se socializa, primitivamente, com um ou outro bicho selvagem.

O que busco são ilhas efêmeras. Só isso.

No entanto, constato estupefata, que sem a ajuda de tampões de ouvido, máscaras para os olhos, cortinas em janelas que dão para outras janelas, secretárias eletrônicas e a velha e conhecida desculpa social (esfarrapada na maior parte das vezes) não passaremos de fantasmas insignificantes vivendo à mercê das taras, fissuras e caprichos alheios.

Tá, já sei! Logo virá o cordão que puxa o coro dos que nos julgam como antissociais, esnobes, mal-educados. Autistas, às vezes.

Não, gente. Não é nada disso. É só desejo de dormir – uma noite, depois do almoço ou talvez uma manhã inteira – de sono tranquilo. Sem recorrer a calmantes ou outros subterfúgios industrializados. De deixar as janelas de nossos lares escancarados e não se importar, ao menos uma vez, se nos tacharão de loucos por andarmos pelados pelos cômodos de nossos lares. De não irmos a TODOS-OS-EVENTOS-SOCIAIS-QUE-APARECEM simplesmente porque há motivos para não irmos e nem sempre fica de bom tom ser completamente sincero.

Esse recorrente desejo humano de ilhar-se parece ter menos a ver com alegria, felicidade e plenitude de uma vida pacata a la “Lagoa azul” (Brooke Shields, saca?) que com uma necessidade primária de se ver longe (por um curto espaço de tempo ou pela vida inteira) do zum-zum-zum, do furdunço, do auê provocado pelo meu próximo.

Só um exemplo. Prometo não render. Noite de carnaval, Baiúca, gente saindo pelos poros... Eu lá, tentando interagir. Patético, admito. Sinto um respingo em meus pés. Olho pro lado. Cena: um cara tonto, pênis na mão, amparado por três amigos igualmente embriagados... Mijando literalmente em mim.

Ok, ok, ok! Bora lá: vou não, quero não, posso não...

Antes fosse só isso... Minha pálpebra pula ao me lembrar. E me dou conta, de repente, que meu corpo tem uma capacidade mnemônica porreta que me recorda, em flashs curtos, ao longo do dia, que por mais que tenha me livrado de certos grilhões que me acorrentavam compulsoriamente à sistemática social em que estava inserida, serão outros aos quais terei que me prender.

E pensar em quais serão já me deixa num estado de pânico latente.

Tá certo. Eu sei que construo e reconstruo o que sou na interação com o outro. Que me dou conta de quem provisoriamente sou a partir do olhar do outro, da convivência com ele, etc e tal. Mas cá pra nós: férias do “outro” não seriam um direito inalienável de todo ser humano não, hein?

Que ilha que nada! Eu quero é a capa da Sheila do desenho Caverna do Dragão!

Juliana Leal

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